
SOBRE O LIVRO
Esse resumo tem como objetivo criar uma imagem geral que permita que o leitor de primeira viagem não se perca entre os diversos conceitos e processos descritos.
Nesse texto as citações das passagens do livro serão escritas em itálico, seguida da indicação do respectivo parágrafo entre parenteses. Fiz dessa forma, pois pretendo ao máximo tornar a leitura fluida.
Em poucas palavras, esse livro expõe como que o inconsciente foi visto pela psicologia com o passar do tempo e como Jung propõe, a partir disso, seu método de lidar com seus conteúdos.
Nesse texto as citações das passagens do livro serão escritas em itálico, seguida da indicação do respectivo parágrafo entre parenteses. Fiz dessa forma, pois pretendo ao máximo tornar a leitura fluida.
Em poucas palavras, esse livro expõe como que o inconsciente foi visto pela psicologia com o passar do tempo e como Jung propõe, a partir disso, seu método de lidar com seus conteúdos.
O INCONSCIENTE PESSOAL / TEORIAS REDUTIVAS (Capítulos I, II e III)
Capítulo I - A Psicanálise
Este capítulo traz os elementos que permitiram a descoberta do Inconsciente Pessoal. Inicialmente a prática psiquiátrica estava voltada para o tratamento dos nervos, das doenças nervosas, em um enfoque totalmente biológico da questão. Neste início não se sabia como um sintoma histérico pode proceder da alma (8).
A teoria que fundamentava a análise neste período era chamada de teoria do trauma, que consistia na percepção de que a causa dos sintomas histéricos decorriam de abalos causados pelo trauma. Este trauma persistia de maneira inconsciente pelo passar dos anos após as impressões serem produzidas. Ficou demonstrado que nenhuma das espécies de sintomas histéricos se produz por acaso, e que esses são sempre causados por fatos que abalam a psique (8).
Esta teoria teve a contribuição substancial de Freud, que deu passos decisivos no desenvolvimento da Psicologia do Inconsciente. Em sua análise à medida que as experiências foram-se multiplicando, foi sendo provado que, na totalidade dos casos até então analisados, existia, ao lado dos fatos traumáticos da vida, uma perturbação de ordem específica situada no plano erótico (10).
A partir desta perspectiva de Freud, renunciou-se, portanto à teoria do trauma, por estar superada. O fato de se reconhecer que não é o trauma, mas um conflito erótico oculto, que está na raiz da neurose, faz com que o trauma perca o seu significado causal (15).
Capítulo II - A teoria do eros
Neste capítulo Jung revisita Freud em seu trabalho de criar uma Psicologia das Neuroses ou Psicologia do Inconsciente. São retomados vários conceitos criados por Freud, mas sempre acompanhados por comentários e perspectivas do próprio Jung. Entre os diversos temas tratados neste capítulo, estão:
A partir desta perspectiva de Freud, renunciou-se, portanto à teoria do trauma, por estar superada. O fato de se reconhecer que não é o trauma, mas um conflito erótico oculto, que está na raiz da neurose, faz com que o trauma perca o seu significado causal (15).
Capítulo II - A teoria do eros
Neste capítulo Jung revisita Freud em seu trabalho de criar uma Psicologia das Neuroses ou Psicologia do Inconsciente. São retomados vários conceitos criados por Freud, mas sempre acompanhados por comentários e perspectivas do próprio Jung. Entre os diversos temas tratados neste capítulo, estão:
- Neurose como cisão (16 - 18);
- Sonhos como acesso ao Inconsciente (20);
- Teoria da análise dos sonhos segundo Freud (21);
- Questão da Libido (33).
Capítulo III - A vontade poder
Neste capítulo Jung pondera a visão unilateral de Freud com a proposta também unilateral de Adler. De um lado está o princípio do Prazer e do outro o do Poder. Jung percebe a natureza complementar de ambas as propostas. Entre os temas tratados no capítulo, temos:
Ao lermos esse livro é fundamental considerar o período em que ele foi escrito (prefácio da 1º edição foi escrito em 1916). Muitos dos conceitos que naquela época era difíceis de serem aceitos hoje já são compreendidos com naturalidade - se tornaram uma espécie de senso comum.
Até agora o livro foi um apanhado bibliográfico que indica o surgimento e os fundamentos da teoria da psicologia do Inconsciente. Já este capítulo IV serão introduzidos conceitos novos, que expandem a barreira de compreensão do Inconsciente. É necessário muita atenção no desenvolvimento do raciocínio linear do Jung. Aqui será introduzido um dos conceitos centrais desta obra: Conflito entre os Contrários.
Se observarmos como ele desenvolve sua argumentação, podemos concluir que seu objetivo era indicar de maneira simplificada as etapas que o conduziu rumo a Psicologia do Inconsciente. Com o auxilio de estudos de casos que entremeiam toda obra, o autor vai indicando e exemplificando suas descobertas e conclusões acerca do inconsciente.
O início deste capítulo trata da razoabilidade da teoria de Freud e de Adler. Jung percebeu que esta celeuma estava persistindo por causa de dois tipos de atitudes que eram ignoradas pelos simpatizantes de Freud e Adler: Introvertido e Extrovertido.
De maneira esquemática:
Segundo Jung as duas teoria de viés redutivo não podem ser aplicadas sem prejuízo tanto em almas doentes como para a sadia. Ele observou que a alma sã não pode ser esclarecida apenas redutivamente. E continua, uma pessoa só foi compreendida pela metade, quando se sabe a proveniência de tudo o que aconteceu com ela. [...] Os sintomas neuróticos não são efeitos de causas passadas, ou seja, da "sexualidade infantil" ou do "impulso de poder infantil", mas também da tentativa de nova síntese de vida (67).
Aqui está contraposto a Teoria Redutiva frente à necessidade de uma Teoria Sintética. Verificou-se que a teoria redutiva termina na percepção dos desvalores da pessoas, enquanto a teoria sintética apresenta o desejo de nova ordem e sentido (70). A teoria redutiva aponta para os condicionamentos, a teoria sintética aponta para as potencialidades (71).
Considerando a neurose como a busca de uma nova expressão de vida, Jung observa que a teoria redutiva serve para dissolver a forma inferior que a personalidade está expressando sua energia. (71) Nesse momento fomos apresentados a dois conceitos ligados à neurose: forma e energia.
O conceito de energia surge através de um link rápido e preencherá as páginas dos próximos capítulos. Embora apareça como conceito secundário, sua importância é de base na formulação dos conceitos que nos serão apresentados adiante.
Para desenvolver o conceito de energia e sua natureza autônoma, ele apresenta um estudo de caso de um americano, estilo self-made man (75) que, ao aposentar, viu-se caindo em grande depressão. Não conseguiu paz em nada daquilo que esperava que o fizesse. Segundo o Jung a energia tem o inconveniente de exigir um fluxo adequado para se reproduzir; caso contrário, fica represada e torna-se destrutiva (75).
É fácil lembrar de situações pessoais que decidimos realizar algum trabalho, mas que sentimos uma tremenda falta de vontade, ainda que estejamos convencidos que temos que realizá-lo. Caso façamos de maneira forçada, ele persistirá por curto período de tempo e logo perdemos completamente o interesse.
Esse exemplo ilustra o problema do fluxo da energia. A energia psíquica tem o capricho de querer satisfazer suas próprias exigências (76) e continua indicando que ele está convencido que o caminho da vida só continua onde está o fluxo natural. Mas nenhuma energia é produzida onde não houver Tensão entre Contrários (78).
Nas linhas acima vimos as seguintes relações:
Aqui Jung traz uma de suas afirmações mais conhecida: onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro. [...] A sombra é uma parte inferior da personalidade (78). Jung demonstra que quando surge uma Tensão entre Opostos, acabamos tornando um dos polos superior e o outro fica relegado a inferioridade. E nisso ele observa que a natureza inferior é caracterizada pela autonomia (85).
Essa autonomia da nossa natureza negligenciada e desconhecida, muitas vezes controla nossas decisões e até a nossa própria vida. Mas como seria possível viver o grande Sim e o grande Não em liberdade e intenção (86).
A função inferior mostra a natureza autônoma da psique, autonomia que determina o fluxo natural da energia. A natureza irracional do fluxo da energia entra em choque com a consciência e gera o conflito dos opostos. Como já vimos, a neurose é uma tentativa de nova síntese de vida. E, agora voltando ao livro, o Jung apresenta duas perspectivas de análise, para:
E continua, não há mais pai ou mãe. Todas as ilusões que projetou no mundo e nas coisas retornam a ele, pouco a pouco, cansadas, desgastadas. A energia de todas essas relações lhe é restituída e entregue ao inconsciente, onde vivifica tudo quanto até então deixara de desenvolver (90). Nesse momento a energia se tornar disponível e abundante, e nisso surge o Problema dos Contrários (91). Tal como Jung observou, este desenvolvimento não se faz mais através da solução de ligações infantis, ou da destruição de ilusões infantis, ou da transferências antigas para novas figuras, mas passa pelo problema dos contrários (91).
Nesse momento é exposto a questão do problema dos contrários. Tenho grande dificuldade de entender esse conceito... pois ele me parece extremamente simples e complexo, simultaneamente . Ao que parece o problema dos contrários apenas constata a natureza dual da psique. Demonstra que ele se expressa pela tensão criada pelos opostos. Tal como um campo magnético ou elétrico movendo uma partícula. Tal como o calor do quente se movimenta rumo ao frio ou do alto que tende ao baixo.
A verdade que esse conceito aparenta velar é a de que a psique se mostra um sistema autorregulado, cujo sistema de controle tem como princípio uma estrutura de oposições. O Jung diz que a teoria psicológica que quiser ser mais do que simples técnica auxiliar tem que basear-se no princípio dos contrários, pois sem ele só reconstruiria psiques neuróticas desequilibradas. Não há equilíbrio nem sistema de autorregulação sem oposição. E a psique é um sistema autorregulado (92). Retomando o fio que deixamos para trás, podemos dizer que agora ficou esclarecido porque a neurose contém justamente os valores que faltam ao indivíduo (93).
A questão da energia finaliza esse capítulo, com a pergunta do Jung a respeito da questão prática: o que vai acontecer com a energia disponível (93) daquela energia recuperada e que antes era a força dos sintomas? A energia em sua autonomia, já possui o seu objeto inconsciente e tudo leva a crer que caso ela não ganhe uma expressão consciente, acaba por ser projetada em algo ou alguém. Através desse pequeno link o Jung conduz o leitor para novamente às portas do Inconsciente e lá perceberemos sua natureza não pessoal.
Capítulo V - O Inconsciente Pessoal e o Inconsciente Coletivo
O desmanche das formas neuróticas conduz a uma repentina disponibilidade de libido (conceito aprofundado em outro livro), que não tem uma expressão adequada para se manifestar. No livro temos o caso da paciente que transferiu suas fantasias para o Jung. Nisso ele verificou que a natureza dessa transferência estava indo além dos aspectos do inconsciente pessoal da paciente, a exemplo de relações com pai ou mãe.
Ele pode observar que a paciente, que conseguiu desmobilizar a sua energia de aspectos neuróticos, agora estava investindo esta mesma energia através de um transferência para o próprio Jung. Essa transferência no entanto era curiosa, pois não tinha como base seus aspectos pessoais, mas sim que tinha como base uma camada mais profunda da psique.
Jung observou que a paciente começou a considerá-lo uma uma espécie de bruxo, um criminoso demoníaco, ou então o bem correspondente, um verdadeiro salvador (99). Foi então que ele percebeu que a paciente não estava mais no âmbito do inconsciente pessoal, mas sim do coletivo. Essa descoberta significa mais um passa à frente na interpretação, a saber: a característica de duas camadas do inconsciente. Temos que distinguir o inconsciente pessoal do inconsciente impessoal ou suprapessoal. Chamamos esse último de inconsciente coletivo, porque é desligado do inconsciente pessoal e por ser totalmente universal; e também porque seus conteúdos podem ser encontrados em toda parte, o que obviamente não é o caso dos conteúdos pessoais (103).
- O caso de Nietzsche: Vontade de Poder (39);
- Distinção entre Eros e Poder (42);
- Neurose segundo a perspectiva de manipulação(54);
Ao lermos esse livro é fundamental considerar o período em que ele foi escrito (prefácio da 1º edição foi escrito em 1916). Muitos dos conceitos que naquela época era difíceis de serem aceitos hoje já são compreendidos com naturalidade - se tornaram uma espécie de senso comum.
Até agora o livro foi um apanhado bibliográfico que indica o surgimento e os fundamentos da teoria da psicologia do Inconsciente. Já este capítulo IV serão introduzidos conceitos novos, que expandem a barreira de compreensão do Inconsciente. É necessário muita atenção no desenvolvimento do raciocínio linear do Jung. Aqui será introduzido um dos conceitos centrais desta obra: Conflito entre os Contrários.
Se observarmos como ele desenvolve sua argumentação, podemos concluir que seu objetivo era indicar de maneira simplificada as etapas que o conduziu rumo a Psicologia do Inconsciente. Com o auxilio de estudos de casos que entremeiam toda obra, o autor vai indicando e exemplificando suas descobertas e conclusões acerca do inconsciente.
O início deste capítulo trata da razoabilidade da teoria de Freud e de Adler. Jung percebeu que esta celeuma estava persistindo por causa de dois tipos de atitudes que eram ignoradas pelos simpatizantes de Freud e Adler: Introvertido e Extrovertido.
De maneira esquemática:
Jung reconhece a validade de ambos os métodos, no entanto percebeu que as duas teorias da neurose não são gerais, mas sim "remédios de uso tópico", dissolventes e redutivos. [...] Explicam ao doente que os seus sintomas vêm daqui ou dali, não passam disso ou daquilo (67). Jung nesse trecho do livro descreve as duas teorias como redutivas, bem como indica que elas não tem natureza global, apesar de sua eficácia em certos casos.
ADLER FREUD Supervaloriza o Sujeito Supervaloriza o Objeto Foco no Fim Foco no Início Introvertido Extrovertido Teorias Redutivas
Segundo Jung as duas teoria de viés redutivo não podem ser aplicadas sem prejuízo tanto em almas doentes como para a sadia. Ele observou que a alma sã não pode ser esclarecida apenas redutivamente. E continua, uma pessoa só foi compreendida pela metade, quando se sabe a proveniência de tudo o que aconteceu com ela. [...] Os sintomas neuróticos não são efeitos de causas passadas, ou seja, da "sexualidade infantil" ou do "impulso de poder infantil", mas também da tentativa de nova síntese de vida (67).
Aqui está contraposto a Teoria Redutiva frente à necessidade de uma Teoria Sintética. Verificou-se que a teoria redutiva termina na percepção dos desvalores da pessoas, enquanto a teoria sintética apresenta o desejo de nova ordem e sentido (70). A teoria redutiva aponta para os condicionamentos, a teoria sintética aponta para as potencialidades (71).
Considerando a neurose como a busca de uma nova expressão de vida, Jung observa que a teoria redutiva serve para dissolver a forma inferior que a personalidade está expressando sua energia. (71) Nesse momento fomos apresentados a dois conceitos ligados à neurose: forma e energia.
O conceito de energia surge através de um link rápido e preencherá as páginas dos próximos capítulos. Embora apareça como conceito secundário, sua importância é de base na formulação dos conceitos que nos serão apresentados adiante.
Para desenvolver o conceito de energia e sua natureza autônoma, ele apresenta um estudo de caso de um americano, estilo self-made man (75) que, ao aposentar, viu-se caindo em grande depressão. Não conseguiu paz em nada daquilo que esperava que o fizesse. Segundo o Jung a energia tem o inconveniente de exigir um fluxo adequado para se reproduzir; caso contrário, fica represada e torna-se destrutiva (75).
É fácil lembrar de situações pessoais que decidimos realizar algum trabalho, mas que sentimos uma tremenda falta de vontade, ainda que estejamos convencidos que temos que realizá-lo. Caso façamos de maneira forçada, ele persistirá por curto período de tempo e logo perdemos completamente o interesse.
Esse exemplo ilustra o problema do fluxo da energia. A energia psíquica tem o capricho de querer satisfazer suas próprias exigências (76) e continua indicando que ele está convencido que o caminho da vida só continua onde está o fluxo natural. Mas nenhuma energia é produzida onde não houver Tensão entre Contrários (78).
Nas linhas acima vimos as seguintes relações:
NEUROSE -- NOVA SÍNTESE -- ENERGIA / FORMA: INFERIOR -- ESTABELECER FLUXO -- TENSÃO ENTRE CONTRÁRIO -- SOMBRA -- NATUREZA INFERIOR --Segundo Jung a teoria de Freud representa Eros; a de Adler, o poder. Pela lógica, o contrário do amor é o ódio; o contrário de Eros, Phobos (medo). Mas, psicologicamente, é a vontade de poder (78).
Aqui Jung traz uma de suas afirmações mais conhecida: onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro. [...] A sombra é uma parte inferior da personalidade (78). Jung demonstra que quando surge uma Tensão entre Opostos, acabamos tornando um dos polos superior e o outro fica relegado a inferioridade. E nisso ele observa que a natureza inferior é caracterizada pela autonomia (85).
Essa autonomia da nossa natureza negligenciada e desconhecida, muitas vezes controla nossas decisões e até a nossa própria vida. Mas como seria possível viver o grande Sim e o grande Não em liberdade e intenção (86).
A função inferior mostra a natureza autônoma da psique, autonomia que determina o fluxo natural da energia. A natureza irracional do fluxo da energia entra em choque com a consciência e gera o conflito dos opostos. Como já vimos, a neurose é uma tentativa de nova síntese de vida. E, agora voltando ao livro, o Jung apresenta duas perspectivas de análise, para:
- Psiques jovens: Comumente, as neuroses juvenis são produzidas por um choque entre as forças da realidade e uma atitude infantil insuficiente, caracterizada, em sua causa, por uma dependência anormal de pais reais ou imaginários e, em sua meta, por uma criatividade deficiente, isto é, por propósitos e ambições inadequados. Neste caso as reduções de Freud e Adler são perfeitamente adequados (88);
- Psiques maduras: No fundo a terapia só começa realmente quando o paciente vê que quem lhe barra o caminho não é mais pai e mãe, mas sim ele próprio, isto é, uma parte inconsciente de sua personalidade que continua desempenhando o papel de pai e mãe (88).
E continua, não há mais pai ou mãe. Todas as ilusões que projetou no mundo e nas coisas retornam a ele, pouco a pouco, cansadas, desgastadas. A energia de todas essas relações lhe é restituída e entregue ao inconsciente, onde vivifica tudo quanto até então deixara de desenvolver (90). Nesse momento a energia se tornar disponível e abundante, e nisso surge o Problema dos Contrários (91). Tal como Jung observou, este desenvolvimento não se faz mais através da solução de ligações infantis, ou da destruição de ilusões infantis, ou da transferências antigas para novas figuras, mas passa pelo problema dos contrários (91).
Nesse momento é exposto a questão do problema dos contrários. Tenho grande dificuldade de entender esse conceito... pois ele me parece extremamente simples e complexo, simultaneamente . Ao que parece o problema dos contrários apenas constata a natureza dual da psique. Demonstra que ele se expressa pela tensão criada pelos opostos. Tal como um campo magnético ou elétrico movendo uma partícula. Tal como o calor do quente se movimenta rumo ao frio ou do alto que tende ao baixo.
A verdade que esse conceito aparenta velar é a de que a psique se mostra um sistema autorregulado, cujo sistema de controle tem como princípio uma estrutura de oposições. O Jung diz que a teoria psicológica que quiser ser mais do que simples técnica auxiliar tem que basear-se no princípio dos contrários, pois sem ele só reconstruiria psiques neuróticas desequilibradas. Não há equilíbrio nem sistema de autorregulação sem oposição. E a psique é um sistema autorregulado (92). Retomando o fio que deixamos para trás, podemos dizer que agora ficou esclarecido porque a neurose contém justamente os valores que faltam ao indivíduo (93).
A questão da energia finaliza esse capítulo, com a pergunta do Jung a respeito da questão prática: o que vai acontecer com a energia disponível (93) daquela energia recuperada e que antes era a força dos sintomas? A energia em sua autonomia, já possui o seu objeto inconsciente e tudo leva a crer que caso ela não ganhe uma expressão consciente, acaba por ser projetada em algo ou alguém. Através desse pequeno link o Jung conduz o leitor para novamente às portas do Inconsciente e lá perceberemos sua natureza não pessoal.
Capítulo V - O Inconsciente Pessoal e o Inconsciente Coletivo
O desmanche das formas neuróticas conduz a uma repentina disponibilidade de libido (conceito aprofundado em outro livro), que não tem uma expressão adequada para se manifestar. No livro temos o caso da paciente que transferiu suas fantasias para o Jung. Nisso ele verificou que a natureza dessa transferência estava indo além dos aspectos do inconsciente pessoal da paciente, a exemplo de relações com pai ou mãe.
Ele pode observar que a paciente, que conseguiu desmobilizar a sua energia de aspectos neuróticos, agora estava investindo esta mesma energia através de um transferência para o próprio Jung. Essa transferência no entanto era curiosa, pois não tinha como base seus aspectos pessoais, mas sim que tinha como base uma camada mais profunda da psique.
Jung observou que a paciente começou a considerá-lo uma uma espécie de bruxo, um criminoso demoníaco, ou então o bem correspondente, um verdadeiro salvador (99). Foi então que ele percebeu que a paciente não estava mais no âmbito do inconsciente pessoal, mas sim do coletivo. Essa descoberta significa mais um passa à frente na interpretação, a saber: a característica de duas camadas do inconsciente. Temos que distinguir o inconsciente pessoal do inconsciente impessoal ou suprapessoal. Chamamos esse último de inconsciente coletivo, porque é desligado do inconsciente pessoal e por ser totalmente universal; e também porque seus conteúdos podem ser encontrados em toda parte, o que obviamente não é o caso dos conteúdos pessoais (103).
A partir do mergulho nas camadas profundas do inconsciente coletivo, o Jung observa a existência das imagens primordiais (104), a qual chamou de Arquétipos. Segundo ele, ao que parece, os arquétipos não são apenas impregnações de experiências típicas, incessantemente repetidas, mas também se comportam empiricamente como forças ou tendências à repetição das mesmas experiências (109). Sobre o seu efeito em nossa vivência, ele diz que cada vez que um arquétipo aparece em sonho, na fantasia ou na vida, ele traz consigo uma "influência" específica ou uma força que lhe confere um efeito numinoso e fascinante ou que impele à ação (109).
O arquétipo é portanto um centro de força que vivifica aquilo que ele toca. Não é por acaso que o Jung nos alerta insistentemente em sua obra do risco associado ao mergulho no inconsciente. Isso porque podemos de alguma forma cometer dois típicos erros: Introjeção e Projeção. Fazendo uma análise da influência desses erros na relação médico paciente, temos que na projeção ele oscila entre um endeusamento doentio e exagerado e um desprezo carregado de ódio em relação médico; na introjeção passa de um endeusamento ridículo para uma autodilaceração moral. O erro cometido em ambos os casos consiste em atribuir os conteúdos do inconsciente coletivo para uma determinada pessoa (110). Vale dizer que quando a pessoa se identifica com o arquétipo, quando essa força primordial se apodera da psique e a impele a transpor os limites do humano, acaba por dar origem aos excessos, à presunção (inflação!), à compulsão, à ilusão ou à comoção, tanto no bem como no mal (110).
Tendo sido avisados sobre os impactos da identificação do ego com os arquétipos, Jung continua no livro trazendo uma explicação para a Função Reguladora dos Contrários: Enantiodromia. Nos foi apresentada a questão do fluxo da energia, tendo sido alertado seu lado negativo quando esta unilateral em sua expressão. Nesse sentido, através do exemplo do típico homem que se voltou demasiadamente ao irracional, Jung observa que este acaba por ser conduzido ao seu oposto que é a irracionalidade.
Ele observou a característica geral deste comportamento, e observou que Heráclito já dizia que um dia tudo reverte em seu contrário (111). Esse princípio de Heráclito é chamado de Enantiodromia que significa correr em direção contrária. Tenho dificuldade de entender esse princípio, mas ao que me parece ele é um movimento espontâneo da psique de compensar os excessos e acontece de maneira Inconsciente. Tanto que Jung indica um certo risco associado ao fenômeno da Enantiodromia. Ele diz que a enantiodromia, ameaça inevitável de qualquer movimento que alcança uma indiscutível superioridade, não é a solução de nosso problema, porque em sua desorganização ela é tão cega quanto em sua organização (111).
Esse último trecho demonstra que a Enantiodromia é algo que devemos evitar e que ainda precisamos de algum elemento que seja capaz de nos conduzir a percepção de vida em um patamar superior. Frente ao conflito dos opostos, em que as duas soluções não são aceitáveis, precisamos do surgimento do terceiro não cogitado. A imagem que me vem na cabeça sobre a enantiodromia é a brincadeira de gangorra, ora o ego está em cima, ora em baixo... mas não tem o movimento real... apenas se parece um jogo.
Jung nos orienta sobre como escapar à crueldade da lei da enantiodromia, para ele somente é capaz quem é capaz de diferenciar-se do inconsciente. E continua que não é através da repressão do mesmo - pois assim haveria simplesmente um ataque pelas costas - mas colocando-o ostensivamente à sua frente como algo à parte, distinto de si (112). Acho interessante essa perspectiva, pois tal como já foi indicado anteriormente, devemos evitar a identificação com o arquétipo a fim de não cair em processos de introjeção e projeção.
O caminho que ele nos indica para conseguir solucionar o problema dos contrários é o trabalho de diferenciar-se do inconsciente. O paciente precisa aprender a distinguir o eu do não eu, isto é, da psique coletiva. [...] A energia antes aplicada de forma inaproveitável, patológica, encontra seu campo apropriado. Para diferenciar o eu do não eu é indispensável ao homem - na função de eu - se conserve em terra firme, isto é, cumpra seu dever em relação à vida e, em todos os sentidos, manifeste sua vitalidade como membro ativo da sociedade humana (113).
Dessa forma, o trabalho com o conflito dos opostos nos exige mantermos uma atitude comprometida com o mundo, pois tudo quanto deixar de fazer nesse sentido cairá no inconsciente e reforçará a posição do mesmo. E ainda por cima ele se arrisca a ser engolido pelo inconsciente. E finaliza indicando o sentimento de quem está vivendo a enantiodromia como estar dilacerado nos pares de contrários (113).
Tendo indicado a maneira adequada de lidar com a questão da enantiodromia, e consequentemente do fluxo de energia, retomamos para a questão do problema dos contrários. Nesse momento, ainda no parágrafo 113, o Jung indica quando é adequado utilizar a análise redutiva e a sintética. Segundo ele quando as imagens de pai e mãe ainda têm de ser superadas e quando ainda tem que ser conquistada uma parcela de experiência da vida exterior, é melhor nem falar de inconsciente coletivo, nem do problema dos contrários (113).
E continua indicando que assim que as coisas transmitidas pelos pais e ilusões juvenis estiverem superadas ou, pelo menos, a ponto de serem superadas, está na hora de falar do problema dos contrários e do inconsciente coletivo. Neste ponto já nos encontramos fora do alcance das reduções freudianas e adlerianas. O que preocupa não é mais a questão de como desembaraçar-se de todos os empecilhos ao exercício de uma profissão, ao casamento ou a fazer qualquer coisa que signifique expansão de vida. E conclui que esta,ps diante do problema de encontrar o sentido que possibilite o prosseguimento da vida.
Dessa forma são lançadas duas formas de análise, onde uma se volta para adaptar a personalidade à vida, enquanto a outra se volta para a busca de um sentido para a vida. O que a juventude encontrou e precisa encontrar fora, o homem no entardecer da vida tem que encontrar dentro de si (114). [...] A passagem da manhã para a tarde é uma inversão dos antigos valores. É imperiosa a necessidade de reconhecer o valor dos oposto aos antigos ideais, de perceber o engano das convicções defendidas até o momento, de reconhecer e sentir a inverdade das verdades aceitas até o momento, de reconhecer e sentir toda inimizade do que ate´então julgávamos amor (115).
Como sair vivo da enantiodromia, (parte II), consistem em não se converter ao contrário, mas de uma conversão dos antigos valores, acrescidos de um reconhecimento de seu contrário. Isso significa ruptura comigo mesmo. E é compreensível que assuste, tanto filosófica como moralmente. Devemos evitar enrijecer nossas ideias, pois no fundo, o motivo do enrijecimento é o medo do problema dos contrário. E o pior desse estado é que aparentemente não há uma saída. "tertium non datur", diz a lógica, não existe terceiro (116). Por conta de tudo isso, temos a seguinte missão: é preciso achar um caminho intermediário conciliatório entre a realidade consciente e a inconsciente (120)
Capítulo VI - O Método sintético ou construtivo
Embora a psique seja um sistema autorregulado, tal como constatamos a partir do problema dos contrários, foi possível perceber que a enantiodromia, que é seu método de compensar unilateralidades, se dá de maneira inconsciente e conduz apenas para outro extremo. Verificou-se nesse processo não foi possível conquistar um grau de conscientização maior, ou mesmo ser possível estabelecer um relacionamento mais efetivo com os conteúdos do inconsciente.
Jung chamou o processo (sofrimento/trabalho) de lidar com o inconsciente de Função Transcendente. Através dela é possível lançar uma ponte sobre a brecha existente entre o consciente e o inconsciente. É um processo natural, uma manifestação da energia produzida pela tensão entre os contrários, formado por uma sucessão de processos de fantasias que surgem espontaneamente dos sonhos e visões.
Jung diz que processo natural da unificação dos contrários serviu de modelo e fundamento para um método que consiste essencialmente em provocar intencionalmente o que a natureza produz inconscientemente e espontaneamente e integrá-lo à consciência e seus conceitos. (121)
Capítulo VII - Os arquétipos do inconsciente coletivo
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