31.12.16

O Médico e o Monstro - R.L. Stevenson



SOBRE O LIVRO

*** ALERTA DE SPOILLER*** 
recomendo que quem tem interesse em ler este livro, que não leia este comentário.
O livro se passa em Londres no final do século 19 e trata da história do dr. Jekyll e mr. Hyde. O primeiro é um médico de sucesso, herdeiro de grande fortuna e um homem apreciado no seu meio social como exemplo de cordialidade e trato. Já o segundo é um homem sem história, de aparência repugnante, desperta em quem lhe vê as piores sensações, capaz de atrocidades terríveis... Um é a antítese do outro e como é de conhecimento comum, um é a contraparte do outro.

É possível dividir o livro em duas partes segundo a narrativa escolhida. A primeira parte é um relato do estranho caso de dr. Jekyll e mr. Hyde pelo mr. Utterson, através da qual é conhecido as vilezas do repugnantes mr. Hyde e as angústias do dr. Jekyll. A segunda parte é a carta escrita por dr. Jekyll no auge de seu desespero.
Esta segunda parte é o que mais me interessou, pois é o relato de alguém que mergulhou profundamente nos seus aspectos mais sombrios. Dr. Jekyll tinha dentro de si duas personalidades autônomas e conhecedor como era das artes da química, criou uma fórmula que permitia dar forma àquele seu outro eu através de uma completa mudança em seu corpo. Aquele que ele veio a se tornar tinha a estrutura corporal fraca e, segundo dr. Jekyll, isso se deu por nunca ter sido alimentado, nunca ter recebido atenção, por ter permanecido tempo demais em segundo plano.

A fórmula que bebia permitia dissociar completamente uma personalidade da outra, garantindo a dr. Jekyll a capacidade de não ser atingido pelos mal-feitos de mr. Hyde. Sendo este absolutamente livre para seguir os caminho negros de seus apetites devastadores e de suas inescrupulosas maldades. Assim, livre do remorso e da culpa, dr. Jekyll gozou por razoável tempo do sabor de viver uma vida onde tudo era possível.

No entanto à medida que o tempo passou, mr. Hyde cometia atrocidades cada vez maiores. Talvez em razão de mr. Hyde ter ganhado mais espaço na vida de dr. Jekyll, a balança do equilíbrio começou a pender para o lado obscuro, o que conduziu à necessidade de doses cada vez maiores da poção que trazia dr. Jekyll a sua forma original. Por fim a transformação começou a acontecer de maneira autônoma, para ganhar a forma de mr. Hyde não era necessário tomar a poção. Bastava relaxar ou mesmo dormir, para ao acordar perceber que lá estava mr. Hyde no reflexo do espelho. Para não falar o final do livro, vou para por aqui neste breve resumo de sua história.

ANÁLISE

Em certo sentido o médico e o monstro nos revela que dentro de nós não há uma unidade coesa. Pelo contrário, somos ao menos duais. Seria possível afirmar que temos em nós uma quantidade difícil de se definir de personalidades autônomas. Neste conto é revelado como uma acentuada polarização destas personalidades acaba por levar a completa dissociação... Então somos levados a cometer as atitudes mais desarrazoadas que até então julgaríamos sermos incapazes.

Esse conto nos convida à reflexão acerca de como em nossas vidas estamos convergindo nossas  inúmeras personalidades. Existe um diálogo entre elas? Existe atenção à suas demandas? Ou escondemos nossos aspectos que não aceitamos... sejam eles iluminados ou sombrios... através de diversas máscaras. Vale assinalar que a Fórmula revela apenas aquilo que temos dentro de nós, sendo assim, muitos assumirão a forma de um deus... enquanto outros a forma de um demônio. Isso porque a sombra muitas vezes oculta não nosso lado sombrio, mas sim aquele que nos é mais luminoso.