SOBRE O LIVRO
Pretendo apontar neste texto algumas percepções das vivências do autor sob o ponto de vista da psicologia Junguiana.
RELAÇÃO DOS FENÔMENOS
A Vida é uma expressão de uma totalidade que excede qualquer explicação. No entanto sentimos a necessidade de entender a forma que determinados fenômenos se relacionam. O objetivo é claro: previsão, segurança, controle, etc. Tudo para fugir do asfixiante acaso.
Muitos relacionam a sucessão dos eventos como uma expressão da Vontade de Deus. Por que isso aconteceu? Porque Deus quis que fosse assim.
Outros explicam a sucessão dos eventos através da ótica de Causa e Efeito. Essa visão parte de uma perspectiva racionalista, e portanto se fundamenta em axiomas, leis, teorias e modelos.
Para todos os outros fenômenos sem relação de causa e efeito determinada, damo-lhes popularmente o nome de Acaso.
Dessa forma surgem dois paradigmas: Causalismo e Casualismo. O Causalismo abrange os dois primeiros exemplos: a Vontade de Deus e a Razão. O Casualismo comporta todos os acasos.
As chamadas coincidências são eventos que acontecem em uma zona cinzenta entre a Causalidade e a Casualidade. Sendo portanto um dos pontos cegos na visão do homem racionalista, ou uma prova das graças de Deus segundo o ponto de vida do homem teísta.
As coincidências cotidianas em regra são tidas como mero Acaso, mas existem aquelas profundamente significativas e que relutam em entrarem no rol das casualidades.
Coincidências significativas são eventos que não guardam qualquer relação de causa e efeito entre si, mas que se unem intimamente através de um significados.
São eventos que causam grande impacto emocional, pois não obedecem os requisitos da causalidade e são significativos demais para simplesmente serem taxados como Acaso.
Jung foi confrontado com uma série destes raros e especiais acontecimentos, dessas coincidências significativas, e por essa razão criou o conceito de Sincronicidade:
Sincronicidade consiste em acontecimentos que se relacionam não por relação causal e sim por relação de significado.
AMYR KLINK E AS SINCRONICIDADES
O capítulo 3 do livro do Amy Klink tem como título: estranho caminhos até Lüderitz. Nele foram indicados algumas das coincidências significavas que lhe levaram a alcançar os meios, bem como insuflar-lhe coragem, para atravessar o oceano atlântico a remo.
- Necessidade de conhecer Lüderitz: tendo decidido que iria partir de Lüderitz, na Namíbia, sentiu a necessidade de conhecer mais sobre o local. O único livro que ele dispunha sobre a Namíbia tinha um erro de impressão justamente na página que falava do país. Poucas horas depois chegou o correio e veio um presente de aniversário: o primeiro número de uma assinatura da revista Geográfica Universal, cuja capa era uma reportagem especial sobre a Namíbia. Ele considerou esta uma "simples coincidência".
- Radioamador Maurice: Após ler tudo sobre travessias ao atlântico, vários livros citavam o radioamador francês, Maurice, que havia acompanhado várias expedições semelhantes a que pretendia. Pensou em achar seu número de telefone, mas desistiu. No outro dia após um passeio de barco conheceu dois franceses que estavam chegando à costa brasileira de barco. Foi convidado a tomar um café com eles. Foi quando o francês do barco disse que estava atrazado para um comunicado via rádio, e eis que incrivelmente era: Maurice. "Quem diria que nos confins da baía da ilha Grande, na foz do rio Perequê-Açu, de Paraty, eu falaria com um desconhecido do outro lado do Atlântico, por quem perguntara um dia antes?"
- Aprender sobre Radio amadorismo: Com o contato com Maurice, viu-se na necessidade de aprender sobre o tema. Achou nos classificados radioamadores que poderiam lhe ensinar esta arte. No primeiro contato por telefone, desligado na cara. No segundo, achou um rapaz que se interessou muito em sua história e pôs-se ajudá-lo. Encontraram-se pessoalmente e à medida que o Amyr Klink foi explicando seu plano. "Pretendo partir de um lugar muito engraçado, um lugar da Namíbia que nenhum brasileiro conhece"; apontou para a cidade e o rapaz perguntou "como?", e continuou "Lüderitz, respondi. Engraçado, não? Um nome alemão em plena Africa!. Ao que o rapaz perguntou "você sabe meu nome?"... e eis que o nome do rapaz era Henrique Luderitz... neto do Adolf Luderitz... fundador da cidade na África, tal como aprendeu na revista. Em suas palavras "simplesmente incrível! Rimos, nervosos com a descoberta, uma dessas inexplicáveis coincidências que desnorteia a cabeça das pessoas mais racionais".
- Carta de Navegação: Após ser mordido por uma cobra, teve que ficar de repouso. Nisso começou a estudar a região da Africa que partiria através de Cartas-piloto do Atlântico Sul e da Namíbia. No entanto a costa da Namíbia era uma "zona dos diamantes, e dificilmente eu teria acesso às cartas náuticas, sobretudo do trecho que mais me interessava que era Luderitz". Foi então que um belo dia, já quase conformado que não encontraria as cartas, o seu primo surge em sua casa com um presente. "Abri o embrulho e com o susto quase o deixei cair: era um abajur, muito bonito, decorado com motivos nauticos, e a cúpula, em vez de simples papel entelado, era uma carta marítima. Uma linda carta. A carta de detalhe do porto de Luderitz, completa, com todas as informações, profundidades acidentes que inutilmente eu procurei em tantos lugares. Ao colocar a lâmpada, e ver iluminado o porto para onde eu me dirigiria, senti um arrepio. Uma silenciosa certeza de que chegaria lá."
CONCLUSÕES
Amyr Klink em seu livro trouxe experiências que espontaneamente aconteceram em sua vida e que ilustram aquilo que o Jung definiu como Sincronicidade. Muitas outras passagens de seu livro trazem coincidências tão significativas quanto as que foram citadas neste capítulo 3 do livro, e que moldaram e inspiraram seu projeto de partir da África e chegar ao Brasil através de um barco a remo.
Amyr Klink em seu livro trouxe experiências que espontaneamente aconteceram em sua vida e que ilustram aquilo que o Jung definiu como Sincronicidade. Muitas outras passagens de seu livro trazem coincidências tão significativas quanto as que foram citadas neste capítulo 3 do livro, e que moldaram e inspiraram seu projeto de partir da África e chegar ao Brasil através de um barco a remo.
O conceito de Sincronicidade não só descreve um evento, mas também permite compreender a possibilidade de enxergar o mundo para além da visão causal. A partir dessa ampliação, nós ganhamos ao nos abrir para a dimensão casual com que a vida é conduzida. Um estudo aprofundado permitiria entender como que os antigos, nos séculos antes de cristo, criaram ciências e escolas baseadas nos fenômenos que se relacionam por seu significado e que navegam através do plano da acausalidade/casualidade.
Portanto, a visão cientificista do mundo nos permitiu consideráveis avanços tecnológicos e mesmo sociais. No entanto para sermos inteiros é preciso considerar também outras formas de visão e nos alimentarmos com aquilo que ela nos traz. Acredito que esse pequeno texto sirva como motivação para não só ler o fascinante livro do Amyr Klink, mas também aprofunda-se nessa teoria superficialmente abordada por aqui.